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Avanços metodológicos para avaliação dos impactos ambientais do lixo marinho

18/02/2024

A poluição causada pelo descarte inadequado e pela presença dos plásticos no meio ambiente é um problema global. Todos os anos, entre 19 a 23 milhões de toneladas de resíduos plásticos acabam destinados aos ecossistemas aquáticos, poluindo lagos, rios e oceanos. Este tipo de poluição pode alterar habitats e processos naturais, reduzindo a capacidade dos ecossistemas de se adaptarem às mudanças climáticas, afetando diretamente os meios de subsistência de milhões de pessoas, as capacidades de produção de alimentos e o bem-estar social (UNEP, 2023).

Em Março de 2022, na quinta sessão da Assembleia das Nações Unidas para o Ambiente (UNEA-5.2), foi adotada uma resolução histórica para desenvolver um instrumento internacional juridicamente vinculativo sobre a poluição por plásticos, incluindo o ambiente marinho.

Apesar da relevância deste tema, até o momento, não existe uma metodologia oficial de ACV para avaliar os potenciais impactos do descarte inadequado e da presença de plástico no ambiente. Isto limita a efetividade da ACV como ferramenta para comparar os impactos ambientais de diferentes tipos de embalagens e produtos plásticos, e suas alternativas (Corella-Puertas et al., 2023).

Uma das primeiras tentativas para quantificar os potencias impactos do lixo marinho foi proposta por Civancik-Uslu et al. (2019), denominada como litter indicator, sendo empregada em estudos de ACV comparando canudos, sacolas e garrafas plásticas com alternativas não plásticas. Os “indicadores de lixo marinho” variam na sua complexidade, mas geralmente consideram a propensão para a geração de lixo (taxa de emissão) e a degradabilidade do material.

Um resultado típico de estudos que incluem um “indicador de lixo marinho” é que a(s) alternativa(s) de plástico são classificadas como as melhores em termos de potencial de mudanças climáticas, mas piores em termos de potencial de lixo marinho.

Em 2020, foi publicado o Plastic Leak Project liderado pela Quantis, consolidando a primeira metodologia para quantificar as “emissões” de plástico e identificar seus destinos para o meio ambiente. Este avanço permitiu a elaboração de inventários de ciclo de vida que incluem estimativas das emissões de macro e microplásticos para diferentes compartimentos ambientais em um estudo de ACV.
Plastic Leak Project
Estrutura geral da metodologia proposta pela iniciativa Plastic Leak Project (Fonte: https://images.app.goo.gl/mn2LcVM4AUBLJdBAA)

Em complementação, para suprir a Avaliação de Impacto do Ciclo de Vida (AICV) com modelos que visassem a quantificação desses efeitos, o projeto MarILCA foi fundado em 2018. O projeto possui previsão de conclusão em 2025 culminando com a entrega de métodos harmonizados de avaliação de impacto que abordem os impactos do lixo plástico em estudos de ACV. Para isso, uma série de artigos científicos estão sendo publicados desde 2019

.A estrutura do MarILCA aborda uma variedade de categorias de impacto, algumas das quais já comumente utilizadas em ACV (por exemplo, toxicidade humana ou ecotoxicidade), enquanto outras são novas (por exemplo, efeitos físicos na biota). Para as diferentes categorias de impacto, o MarILCA visa desenvolver fatores de caracterização para “emissões” de plásticos de diferentes tamanhos (macro, micro e nano) em diferentes compartimentos ambientais (marinho, de água doce, terrestre, aéreo).
Estrutura do MarILCA
Estrutura geral da metodologia proposta pela iniciativa MarILCA com o escopo dos Fatores de Caracterização desenvolvidos destacados em verde (Fonte: https://marilca.org/characterization-factors/)

Em julho de 2023, Corella-Puertas et al. divulgaram os fatores de caracterização mais avançados para efeitos físicos na biota dos impactos das emissões de microplásticos aquáticos (marinhos e de água doce) de diferentes polímeros, formas e tamanhos.

  • Polímeros: EPS, PS, PA, PP, HDPE, LDPE, PET, PVC, PLA, PHA e TRWP (tire and road wear particles).
  • Formas: esfera/microesfera, cilindro/microfibra, fragmentos de filme microplástico.
  • Tamanhos: 1, 10, 100, 1.000, 5.000 µm.
Efeitos plástico meio marinho

Imagem ilustrativa sobre a diferença entre os efeitos físicos e químicos na biota das emissões de plástico no ambiente marinho (Fonte: elaborado por ACV Brasil com base em Corella-Puertas et al. (2023)

Os Fatores de Caracterização apresentados em Corella-Puertas et al. (2023) compreendem apenas parte da complexidade dos potenciais impactos do lixo plástico indevidamente descartado ou presente sem tratamento no ambiente. Outras categorias de impacto relacionadas com as “emissões” de plástico são atualmente desenvolvidas pelo MarILCA (efeitos físicos na biota dos macroplásticos, espécies invasoras, ecotoxicidade dos aditivos plásticos, etc.) e permitirão uma avaliação mais abrangente dos impactos dos plásticos no ambiente.

Para melhor compreensão das etapas de inventário (Plastic Leak Project) e avaliação de impacto (MarILCA) sugerimos a leitura dos estudos de caso resumidos no Apêndice C da publicação realizada pela UNEP em 2022.

Em caso de interesse na realização de estudos de ACV sobre o tema, entre em contato.